Eu e o cozinheiro. Uma história no Camboja

Esta é uma história improvável para os dias de hoje, mas que aconteceu há 16 anos, num dos países mais isolados do mundo (pelo menos naqueles tempos). Até parece mentira, mas aconteceu e é esse tipo de coisa que acontece quando se viaja, é que faz um certo lugar ficar marcado para sempre em nossa memória.

Uma viagem é feita por vários aspectos, são os lugares que visitamos, o povo local, coisas inusitadas que vemos e claro, a comida do lugar, que também diz muito a respeito daquela cultura, os hábitos, clima e mais um pouco.

Era uma noite quente e úmida numa cidadezinha do interior do Camboja chamada Siem Reap. Um vilarejo que fica à beira do Rio Mekong, um dos maiores rios do mundo e também porta de entrada dos magníficos templos de Angkor, construídos a partir do século IX. Cheguei na cidade já no fim do dia vindo de Phnom Penh, a capital do país, num voo da Royal Air Cambodia que parecia saído da União Soviética pós Guerra e pós tudo, um Tupolev sujo, mal cuidado, mas o pior mesmo era quando estava no ar, parecia que não ia conseguir chegar a lugar algum e a turbulência do clima tropical era brutal e não ajudava em nada.

Ainda por cima, na minha estada anterior em Bangkok, um tanque de Guerra praticamente havia me atropelado por dentro. Estava passando mal do estômago de verdade, onde credito essa intempérie à minha curiosidade pela magnífica culinária tailandesa e às quantidades cavalares de pimenta que meu corpo recebeu.

Superei a viagem sem muita coisa no estômago pra passar mal e cheguei são e salvo no Camboja, meio que de ressaca e felizmente recuperado dos problemas estomacais recentes. Como dizem que tenho estômago de avestruz, e tenho mesmo, fui para meu pequeno e singelo hotel, situado numa das poucas ruas da cidade, com pouca iluminação que era provida por geradores e que ficava oscilando o tempo todo dando um clima de fim de mundo. Tomei banho, o que não ajudou muito a refrescar e saí em busca de algum lugar para comer. Tudo estava vazio, pouquíssimos turistas à vista e o brasileiro curioso e destemido caminhando sem direção. Encontrei um lugar que me parecia apresentável e sentei numa mesa de canto. Eu era o único cliente da noite no lugar durante minha refeição inteira, e olha que ela não durou pouco.

Um garçom muito atencioso tentava me explicar o que era cada prato, mas o entendimento ali não foi fácil. Na dúvida, pedi vários pratos, em parte por não querer arriscar e comer algo que poderia não descer bem, e talvez mais provavelmente por querer repor o tempo perdido pela noite anterior e pelo dia inteiro onde não foi possível comer absolutamente nada, a não ser muita água para minha re-hidratação.

Depois de alguma espera começaram a chegar os pratos. A apresentação estava boa, mas os sabores eram simplesmente sensacionais. Chegou de tudo, carne de vaca ao molho que parecia de ostras servido com vegetais, todos ao dente e numa cor sem igual, tudo super fresco, frango com leite de coco e mais algumas coisas que meu paladar não conseguiu identificar, peixe cozido e frito vindos diretamente do Rio Mekong, mas super bem preparados, camarões, e mais alguma coisa que não sei bem o que poderia ser, mas acredito que era uma iguaria local super apreciada, cobra… Experimentei, mas eu não tinha estômago para arriscar tanto e parei na primeira garfada. Depois de mais de hora nesta refeição silenciosa, com os dois garçons do lugar me admirando de queixo caído, um deles veio me dizer que o chef do restaurante gostaria de me conhecer. Foi uma surpresa e tanto e claro que começamos uma conversa de doido, um tentando se fazer compreender como podia, eu no inglês e ele no francês. Depois de 15 minutos de conversa boa, ele me disse que estava fechando seu restaurante e perguntou se eu gostaria de conhecer a cidade. Ressabiado como todo bom brasileiro escaldado, subi em sua motoca, na verdade uma mobilete tão antiga quanto o avião que me levou até ali, e saímos pelas ruas mal iluminadas da cidade.

Passamos por bares ainda mais escuros, por ruelas, pelos poucos bairros, por muitas ruas esburacadas e tantas outras de chão batido, parávamos quando ele encontrava algum conhecido, me contou sobre sua vida e sua família, e depois ao fim de nosso tour, paramos num bar para tomar uma autêntica cerveja cambojana, a Angkor Beer, que tive a capacidade de trazer uma long neck da viagem como souvenir. Já bem tarde ele me deixou em meu hotel e este encontro improvável com este simpático cozinheiro foi uma ótima oportunidade de conhecer um pouco mais da cultura desse povo amistoso e hospitaleiro, que sofreu nas mãos de regimes repressores e cruéis e que mesmo assim está aberto para conhecer o que vem de fora e quem pode trazer um pouco de informação de outras culturas.

No dia seguinte logo cedo os templos de Angkor me esperavam, mas aí é outra história que já foi postada aqui no O Mundo é Meu Vizinho.

Ale Ravagnani

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2 Respostas

  1. Belo post, bela história. Essa eu não conhecia.

    Abs.

  2. Valeu Edu!

    São histórias que quase ficam no passado, mas que muitas vezes são graças a elas que nos ajudam a lembrar de uma viagem.
    É a memória visual, olfativa e claro, degustativa…

    Abraços

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